Ontem deitei-me numa cama que não era a tua.

Ontem deitei-me numa cama que não era a tua.
Ocupo o meu tempo á procura de ti em outros rostos, em outros corpos.
Caindo na ilusão de quase acreditar que numa rua qualquer alguém vai aparecer e ser tudo aquilo que tu és. Mas eles não são. E nunca vão ser.
Hoje julguei ter-te visto, assim como julgo ver-te ou desejo encontrar-te numa volta qualquer que eu dê por aí. Mas não eras tu. Nunca és.
Já passaram anos desde a última vez que te vi, mas não em sonhos. São eles que ainda te mantém na minha vista, aguentando os pormenores de ti que ainda me consigo recordar.
Ontem descobri um corpo que não era o teu.
Foi só mais um corpo, de um tipo qualquer. Que não ficou. Que não vai ficar. Que eu não quero que fique.
Sei que não entendes o porquê da procura, mas não se trata de mais nada do que ocupar o vazio de tu não estares.
Sempre me senti vazia, não de sonhos ou vontades, mas vazia de mim, se é que isso faz algum sentido. Quando vieste isso mudou. Mas agora não. Não mais.
E mesmo não sabendo como é possível, o vazio de antes triplicou.
Talvez seja isso que está reservado para mim, não haver nada depois de ti.
Vazia.
Partida.
Perdida.
Á deriva.
Ainda espero por ti.
Ainda te quero aqui, onde pertences e onde ambos pertencemos.
E tu sentes o mesmo, eu sei que sim. Só ainda não estás pronto.
Talvez tenhamos de rir com outros risos, olhar para outros olhos, beijarmos outras bocas para descobrirmos e estarmos prontos para aceitar que nos pertencemos um ao outro, com outra atitude, com outra maturidade que só vem depois de outras vivências, depois de outros fins e recomeços, depois de assentarmos as ideias e nos descobrirmos primeiro em nós próprios.
Depois de percebermos também que as noites partilhadas na mesma cama, as tardes de verão, as manhãs frias de inverno, as refeições partilhadas na mesma mesa só fazem sentido a dois, se esses dois formos nós, juntos, como prometemos que seria.
Éramos demasiado novos, uma vida pela frente e já um sentimento tão grande no peito, só não estávamos preparados.
Acho que nunca estivemos preparados para ter algo tão grande em nós, tivemos sempre o receio de cuidar, de não estragar, de não deixar fugir, e foi aí que começámos a perder, o medo toma conta de nós e quando damos conta já não somos tão nós, somos medo, inseguranças e receio, julgo que tenha sido isso que nos levou de nós.
Mas não me levou de ti.
Não em alma.
Não em espirito.
Nem mesmo em corpo. Mesmo com ele longe do teu ainda te pertence.
Sei que ainda te lembras de mim, assim como eu de ti, mesmo que já não tão frequente, mesmo que nem demos por isso, mas ainda estamos um no outro.
Lembro-me de termos dito que é impossível esquecermo-nos, sempre vamos ser uma parte importante na vida um do outro. Mesmo que haja outras pessoas, a nossa historia vai sempre existir, mesmo que ninguém saiba, que ninguém se lembre ou ninguém suspeite, sempre vamos ser eu e tu, congelados com o passar dos anos, deixados ficar para trás, mas sempre lá, onde ninguém toca, onde ninguém estraga. Quem sabe um dia nesse virar de páginas a nossa história volte a ser escrita.
Entretanto seremos apenas duas almas perdidas, encontradas por outras almas que pouco nos dizem como dissemos uma vez um ao outro.
Amanhã vou sair á rua, sei que não te vou encontrar, ou talvez vá e é esse talvez que me motiva, também destrói, a incerteza, mas há algo de bonito nisso, não sabemos o dia de amanhã, talvez nos surpreenda, talvez nos reencontre.
Talvez amanhã.
Talvez depois.
Talvez no próximo mês.
Só sei que vai ser. Não me perguntes como sei, só o sei.
E quando for será para valer.
Sei que temos algo reservado para nós, quem sabe não seja um dia bateres-me á porta de malas na mão “desculpa a demora, vim para ficar”, e eu de braços abertos saberei que foi a melhor espera da minha vida.
Sabes que te espero, até um dia.
Sempre tua.

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