Se eu soubesse.


Oxalá eu soubesse naquela altura o quanto iria doer mais tarde eu ter-te deixado ir.
Se eu soubesse ter-te-ia abraçado mais. Acarinhado mais. Ter-te-ia dito que tu eras o significado de viver bem, que embora tudo em mim estivesse quebrado e vazio tu me tinhas dado um rumo e ajudado a apanhar cada caco meu que ao longo da vida se espalhou pelos cantos por onde passei.
Se eu soubesse que aquele tinha sido o dia em que tu irias embora, eu ter-te-ia beijado mais, teria feito as pazes quando o orgulho se meteu à frente de nós, ter-te-ia puxado para mim de todas as vezes que fomos dormir chateados.
Se apenas eu soubesse teria tirado ainda mais proveito dos momentos a dois, teria valorizado quando me falavas brusco na tentativa de me chamar à razão, teria agradecido por me dares a mão sempre que eu caia ou fraquejava.
Teria arrumado a mala mais vezes para ir ter contigo, teria vestido mais vezes o meu bom humor ao invés de descarregar em ti o peso dos dias maus, teria falado contigo e explicado que ás vezes eu fico perdida e não encontro o sentido de estar aqui em vez de te ter deixado pensar que o problema eras tu, e ter-te-ia deixado saber que tu eras afinal a solução.
Se eu soubesse que o nosso último dia iria chegar ter-nos ia levado para bem longe dele.
Mas não levei.
E ele chegou. Chegou sem que eu desse por isso, quando dei por mim tive de lidar com uma despedida que só eu fiz, sozinha e que nunca foi bem-sucedida.
Quando chegou já eu te tinha perdido à muito enquanto pensava que era impossível ficar sem ti.
Mas eu devia saber melhor. Devia ter sabido que no momento em que damos algo por garantido esse algo é-nos tirado com a mesma facilidade com que entrou nas nossas vidas.
E tu foste tirado de mim, mas nunca de mim na verdade, nunca dos meus pensamentos, nunca do meu corpo, da minha pele que tocaste tantas vezes como à minha alma.
Já não tenho o teu toque, já não te sinto mas ainda me lembro, ainda me lembro do teu sorriso, do olhar doce com que me olhavas, do ar engraçado que fazias quando eu era desajeitada, de como ficavas envergonhado ou chateado contigo próprio quando não conseguias por qualquer motivo impressionar-me, mal tu sabias que bastava o simples facto de fazeres algo para mim para me deixar impressionada. Devia ter-te dito isso mais vezes!
Devia ter-te sentido mais, devia ter-te cheirado mais, olhado mais.
Devia ter perguntado mais vezes sobre o teu dia, se chegas-te bem a casa ou se dormiste bem.
Devia ter-te dito que me orgulhava de ti, que amava cada defeito teu com a mesma intensidade com que amava as tuas qualidades.
Mas mais uma vez agi como a tola que sou, que acha que amanhã terá mais tempo, e não te valorizei o suficiente.
Se eu soubesse ter-te-ia agradecido por todas as vezes que ficaste, que viste o melhor em mim, que te mostraste orgulhoso da pessoa que tinhas ao teu lado.
Se fosse agora ter-te-ia respondido às mensagens longas de boa noite, em vez de simplesmente as ter lido e relido quando acordava e ter sorrido a cada palavra, devia ter-te feito sorrir também!
Quero que saibas que foi graças a ti que eu tive motivação para endireitar a minha vida, para arrumar cada foco de desarrumação que se encontrava nela, e em mim também, fica a saber que te agradeço por me teres feito ver que não sou construída só de bocados soltos, de vazio, de andar á deriva, há em mim uma força incalculável, uma vontade imensa, só precisei que alguém o visse também e tu viste, mostraste-me isso. E quando o dia chegou eu perdi-te e nesse momento perdi-me também, mas encontrei-me, tu ensinaste-me a fazê-lo, espero que o faças também, sei que também te perdes, que ás vezes te esqueces do que vales, e eu nem sempre te o disse, e se pudesse voltar atrás eu teria ficado mais vezes, talvez assim tu tivesses ficado também.

Comentários

Enviar um comentário

Mensagens populares